quinta-feira, 20 de novembro de 2008



VAMOS DAR UMA OLHADA EM UM TRECHO DO LIVRO:

TECNOBREGA
O PARÁ REINVENTANDO O NEGÓCIO DA MÚSICA.
Livro de Ronaldo Lemos e Oona Castro

Descrever uma festa de aparelhagem a quem nunca foi é, definitidamente, uma tarefa ingrata. É impossível dar a dimensão do que é o evento apenas por palavras. Para se ter uma idéia, se você não sabe onde está acontecendo uma festa em Belém, olhe para o céu. Veja de onde saem as luzes de holofotes poderosos. É o chamado skywalker, um sinalizador que projeta raios de luz e que pode ser visto de pontos longínquos da cidade. Siga o rastro. São essas as luzes guias que levam milhares de fãs às festas de aparelhagens. Um dos informantes da pesquisa comparou Belém a Gotham City, fazendo referência ao “batsinal”. Ao chegar mais perto, confie no seu sentido auditivo e persiga a música até encontrar a rua certa.
Quando já se consegue avistar a festa, encontram-se centenas de pessoas em volta, na fila, no quarteirão. Ao entrar, os pés pisam um solo vibrante, tremente – efeito provocado pelo volume e pela potência das caixas do som. Os enormes equipamentos são um espetáculo à parte. Eles próprios são objetos de adoração do público do circuito tecnobrega. As torres de caixas de som atingem mais de três metros de altura. Ao contrário da maioria das festas de música eletrônica de outras regiões, nas festas de aparelhagem o lugar ocupado pelas cabines e DJs é central e de grande exposição. Eles voltam-se para o público e mantêm interação com ele o tempo todo.
Os fãs, por sua vez, nunca dão as costas à cabine e ao DJ. Dançam de frente para eles como se vira para o palco em um show, com exceção dos casais que aceleram o passo e engatam a dança a dois, fazendo reviver o costume do brega paraense. Além de computadores e equipamentos de discotecagem de toda sorte, as estruturas que compõem o espaço dos DJs incluem também telões de grandes dimensões, onde o público se vê e acompanha a apresentação dos DJs, equipamentos de iluminação e efeitos especiais.
As maiores aparelhagens são Tupinambá, Rubi, Super Pop, Ciclone e o príncipe negro. Elas possuem o melhor e mais moderno equipamento eletrônico para produção de uma festa: uma sofi sticada mesa de som, câmeras de vídeo filimando a festa, que é reproduzida em dois grandes aparelhos de televisão LCD, um notebook, equipamentos de efeitos visuais (como raio laser e fumaça) e de iluminação. O que defi neo tamanho de uma aparelhagem não é apenas o prestígio, o cachê e o público que atrai, mas, principalmente, a potência de seu som e o investimento em recursos tecnológicos.
As aparelhagens médias têm menor disponibilidade de recursos financeiros para a renovação constante de equipamentos e seus DJs têm fama mais limitada. Sua estrutura física não conta com notebooks ou equipamentos sofisticados de efeito visual ou sonoro. Elas são compostas de um ou dois conjuntos de caixa de som que formam torres, mas o computador é estacionário e seus equipamentos de iluminação, mais simples.
Para se ter uma idéia da importância das cabines de controle para a simbologia das aparelhagens, elas são chamadas de Altar Sonoro no caso da Tupinambá; Nave do Som é a da Rubi; Águia de Fogo, da Super Pop; e Duplo Cyber Comando, da Ciclone. A cabine e os efeitos visuais que cada uma delas pode exibir não só distinguem o “tamanho” das aparelhagens, mas também diferenciam as “grandes” aparelhagens entre si, conferindo especificidade a cada equipamento de som. Além de terem nomes, as cabines são sempre associadas a uma idéia de divindade (“altar”) ou de grande poder de alcance (“nave” e “águia”).
São muitos os DJs que tocam em uma mesma festa de aparelhagem. A cada um que entra, anuncia-se o nome daquele que vai comandar a festa a partir de então. Os que abrem e encerram as festas são chamados de DJs auxiliares. O momento auge se dá quando o DJ principal aparece e faz o seu espetáculo, exibindo os principais recursos tecnológicos da aparelhagem. Em geral, o anúncio vem com mais pompa, acompanhado de rituais que caracterizam cada um deles, como a elevação da cabine de controle, onde se produzem os efeitos visuais e sonoros, criando um ambiente mítico. A idéia é valorizar a figura do DJ principal, aproximando-o do céu, quase conferindo um toque de divindade a ele. Prepare-se! A partir de agora você vai ouvir, curtir e dançar ao som da melhor e maior aparelhagem de todos os tempos: Tupinambá – O Treme Terra! A maior estrutura de som está aqui para fazer a sua alegria. Som tridimensional, iluminação digital e os melhores DJs no comando do Altar Sonoro: DJ Toninho; DJ Wesley; a primeira mulher DJ em aparelhagem – ela, a DJ Agatha; e o fantástico DJ Dinho. Agora é TUPINAMBÁ! (Trecho da faixa de um CD, conforme é proferido durante as festas da Tupinambá, exaltando os DJs).Principal DJ da aparelhagem Tupinambá, o DJ Dinho é conhecido por iniciar suas apresentações com a elevação do Altar Sonoro e por usar o cocar na cabeça ao longo de seu set. Como em clubes de futebol, existem disputas pela contratação de “craques”, ou DJs famosos e admirados pelo público. Este é o caso, por exemplo, do DJ Wesley, também conhecido como DJ Biruta. Ele fez sucesso na Rubi, mas foi contratado pelo DJ Dinho, da Tupinambá. Meses depois voltou para o Rubi, contribuindo para a recuperação do prestígio temporariamente perdido por ela.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Viva o Tecnobrega


Viva o Tecnobrega!

Finalmente nós paraenses já podemos nos orgulhar de nosso Estado e de nossa gente. Nos últimos meses, diante de milhões de telespectadores, a Banda Calypso freqüenta os programas mais assistidos das maiores emissoras do país. O Anormal do Brega já foi no Jô, o Wanderley Andrade estava em cadeia nacional. De verdade! Não é um projeto social qualquer, não é uma tragédia, não matamos nenhuma missionária americana, não fuzilamos os sem-terra, não batemos um novo recorde por assassinato na luta agrária, de jeito nenhum, somos nós mesmos, inteiros, cantando e rebolando para todo mundo ver quem somos de verdade e como é animada nossa música e nossa cultura.

Não precisamos mais nos envergonhar de nossa condição de atrasados, índios e preguiçosos, saímos da condição de pobres da periferia do país para o lugar de estrelas. Podemos ser vistos em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador, de ponta a ponta do Brasil, todos podem ver o que é um paraense, contrariando o que os preconceituosos de São Paulo e do Rio sempre acharam: que éramos parte do atraso do país e que eles – os paulistas – tinham que trabalhar dobrado para que nós pudéssemos dormir depois do almoço. Humilhação nunca mais.
Críticos de música, produtores, antropólogos, todos elogiam o Tecnobrega como um momento maravilhoso da música paraense, junto com o funk carioca, o hip-hop paulista, a tchê music gaúcha, o lambadão mato-grossense, o forró amazonense e toda a música das periferias das grandes cidades. É de verdade, não estamos diante de uma enganação da mídia. Vocês não viram no Fantástico?
Nós seremos lembrados como aqueles que conseguiram enganar as grandes gravadoras, vendendo milhões de cópias nas barbas de um empresário fonográfico embasbacado, que não sabia onde ficava Belém no mapa do Brasil. o Brega, quer dizer, o Tecnobrega – afinal já somos modernos – vai invadir tudo. Só se fala nisso. Podem bater no peito e gritar: é Pará isso.
No final da década de 60 o Brasil descobriu um outro momento desse ser amazônico: Paulo André, Rui Barata e Fafá de Belém. Nossa música também circulava livre e nacionalmente. Fafá era uma estrela ascendente enquanto Paulo e Rui jogavam alto no quesito letra e música. Nenhum nome das gerações posteriores chegou tão longe. Eu tinha orgulho de conhecer de perto compositores como Vital Lima, Paulo Uchoa, Edir Gaya, Walter Freitas, Ronaldo Silva, Gilberto Ichihara e tantos outros, tão próximos, tão vivos... hoje entendo um pouco melhor o percurso de nossa mais popular cantora. Entendi que ela trocou a música da Amazônia pela opção da diversidade mercadológica. Décadas depois de um silêncio tumular, a popularidade da dupla Joelma/Chimbinha é incomparável. O Pará é, novamente, foco das atenções.
O grande mérito do Tecnobrega não diz respeito à qualidade da música – quem os celebra não entra nesse mérito –, mas à capacidade de ter nascido avesso às gravadoras (ver texto de Pedro Alexandre Sanches, “A música fora do eixo”, Carta Capital, n° 380). No entanto, ironicamente, por que as emissoras abertas levam a Banda Calypso pra tocar no horário nobre da TV, que todos sabem que trabalha em conluio com as gravadoras? Os mecenas Faustão, Gilberto Barros, Gugu, Luciano Huck descobriram repentinamente como é boa a fusão do Caribe com a Amazônia? Por que Regina Casé ganhou um quadro no superalternativo Fantástico pra tentar provar que só os chatos não gostam dessa música que brota livre nas periferias? Resposta: porque se essa música não tivesse passado por um processo de adequação, de pasteurização, de uniformização ela jamais tocaria na TV. Para 90 % das grandes corporações de mídia televisiva brasileira só interessa música ruim, é assim há pelo menos duas décadas.
Quando o Brega começou a tomar conta de Belém e se sobrepor ao Axé, todos os méritos deviam ser dados. Mas louvável era a consciência que os bregueiros pareciam ter da extensão de sua música. O axé-music sempre se levou a sério, com o aval de medalhões da MPB. Os bregueiros não, sempre foram especialistas na auto-ironia, no riso-de-si. A Banda Calypso guarda essa auto-ironia, não é possível que o figurino da Joelma... bem... eu ouço Brega quando quero lembrar do cheiro do interior, do clima erótico da cidade em que nasci, da graça impagável das letras. Não se trata aqui de uma crítica negativa ao Brega, todos nós cumprimos um papel, o Brega também. Trata-se de uma tensão necessária, para evitar que a gente comece a achar normal a necessidade de torcer e sentir orgulho até da Thaís do Big Brother porque ela é paraense.
Se a música comercial não pode mais ser boa - sim, porque já foi um dia -, então toda essa música se justifica como um grito social. Mas, o deslumbramento de pessoas do meio musical com essa música me causa grande espanto. Confesso não perceber quão grandiosa ela é, moderna e antenada. Devo estar perto demais.

Por fim: já se pode ir a uma bregão de aparelhagem na Assembléia Paraense? Estão esperando o quê?! Precisamos fazer como o funk carioca, que vê a nata da sociedade se acabando na pista, numa quebra das barreiras sociais. Ainda que no fim da festa os bem criados voltem para casa de Mercedes Classe A e durmam em cama branca com ar condicionado, enquanto a moçada da perifa espera o busão.

Isso não interessa não é mesmo? Questão menor diante da alegria de ser brasileiro, de ser paraense.

Henry Burnett
texto publicado no jornal O Liberal, fev 06

NOVA MÍDIA POPULAR: TUPINAMBÁ E RUBI


NOVA MÍDIA POPULAR: TUPINAMBÁ E RUBI

A especificidade do regional de certo ponto inserido no Movimento Brega Paraense é o ponto central do argumento que agora com o passar do tempo, desde o seu surgimento fica mais claro e permite uma análise mais ampla de seu sentido de movimento local. O acesso de novas formas de comunicação aliada a novas mídias impulsionou esse movimento musical para envolver mais adeptos numa dimensão local e regional. Quase que naturalmente, nota-se que esse estilo de música popular transformou-se em um produto de identidade local e mercantilização cultural.
Com o desenvolvimento do movimento Brega Paraense e a possibilidade da comercialização de produtos eletrônicos importados, ressurge uma nova mídia popular: As aparelhagens sonoras que eram recursos muito utilizados desde a Primeira Grande guerra mundial, hoje, provavelmente em decorrência do capital mundializado e o processo de globalização com a abertura de mercado, "essas aparelhagens" ganharam mais força, potência e aperfeiçoamento tecnológicos e são apresentadas em sistema stéreo e, em alguns casos até computadorizadas.
O ressurgimento desse tipo de "mídia" é caracterizado pela facilidade de acesso, porque ao contrário do que ocorre nas grandes mídias, a aquisição desses equipamentos não requer grande capital e o mercado de varejo dispõe de linhas de financiamentos para os diversos segmentos de consumidores. Muitos desses produtos eletro-eletrônicos possuem peças importadas, mas em função do baixo custo da mão de obra brasileira são montados no Brasil, o que seguramente faz com que esse mercado tenha uma grande variedade de equipamentos para diferentes estilos de consumidores.
A estrutura de uma empresa de aparelhagem sonora geralmente é de propriedade familiar e, conseqüentemente, a quase inexistência de burocracia para compra e a facilidade para operar esses equipamentos justificam a proliferação desse tipo de veículo de comunicação popular na região amazônica. A maior representatividade desse tipo de mídia no Pará são as aparelhagens "Tupinambá", "Pop Som" e o "Rubi" que realizam shows em todo estado e na região norte do Brasil. Apesar da falta de dados oficiais nota-se que esse tipo de atividade cresceu e está se desenvolvendo dia-a-dia com novas funções no mercado de trabalho; são novos músicos, técnicos, motoristas, ajudantes, carregadores, enfim vários tipos de mão-de-obra utilizadas para o entretenimento popular.
Essa nova dimensão de tecnologia e de espaço de comunicação alcançada pelo movimento Brega Paraense, não permite até agora conferir ou verificar a dimensão do impacto da globalização nesse atual processo de movimento musical e social. Verifica-se que esse tipo de mídia mesmo diante da tecnologia mundializada (TV, internet) consegue atingir e envolver as massas populares em seus diversos segmentos de público. Um exemplo desse envolvimento está na canção "Dudu", cantada por Anna di Oliveira, canção essa que em curto espaço de tempo tornou-se hino da campanha do candidato para prefeito Duciomar Costa, o qual concorreu na última eleição para a prefeitura de Belém.
Cumpre reconhecer que esse entretenimento popular de lazer e interação social pode-se dizer que na sua atual performance, apresenta uma nova forma de trabalho e geração de renda local com sua diferente maneira de utilizar a mídia para divulgar uma emergente economia local e uma cultura regional.

REFERÊNCIA:Este trabalho foi apresentado no 8º Simpósio da Pesquisa em Comunicação (SIPEC) da Região Sudeste acontecido de 16 a 17 de março de 2001 na Universidade Federal do Espírito Santo em Vitória (ES). fonte:http://www.bregapop.com

TECNOBREGA


TECNOBREGA DE BELÉM-PARÁ.

Incorpora-se à recente cena musical de Belém do Pará e um gênero produzido é tocado, dançado predominantemente em espaços da periferia urbana por grupos que compartilham um estilo de vida refletido na maneira de se vestirem, em códigos verbais e corporais, nos gostos musicais e noutras formas de sociabilidades.
Trata-se do tecnobrega, caracterizado por agregar pulso veloz, recursos da technomusic e manipulação de ritmos utilizando softwares da internet. Consiste, a princípio, na “modernização” do brega-calypso, este por sua vez produzido através de fontes acústicas e eletrônicas, e identificado por “produtores” e “compositores” locais (categorias nativas para identificar diferentes papéis na criação musical) como resultado da mistura entre músicas caribenhas e guitarra elétrica.
O tecnobrega como o brega, que se estabeleceu na década de 1960 em cidades como Goiânia, Recife e Belém – transparece uma condição de distinção social, em que ser “brega” significa possuir “mau gosto” estético. Em contrapartida, diferentes atores envolvidos no circuito produtivo do tecnobrega preocupam-se em legitimá-lo, diante daqueles que vêem nele “feiúra” e “cafonice”, e também deles próprios, que amargam esta condição. Na esfera da produção musical, a noção de “estigma” ganha status de ação de resistência, através de escolhas estéticas que amalgamam numa mesma música sonoridades legitimadas localmente e um espírito cosmopolita favorecedor da abertura de canais para experiências culturais globais. Sob a perspectiva da legitimação e observando a relação cosmopolitismo, regionalismo e busco compreender a teoria nativa que emoldura as apropriações estilísticas no tecnobrega a partir de parâmetros e recursos musicais como timbres, ritmos, mixagem e sampling.